terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Menina


Uma menininha pequena, bem pequena... Ela sempre teve olhos firmes e graúdos, olhos amendoados que brilhavam diferentes a cada novidade que a vida lhe apresentava. Ela se colocou pra vida e viveu momentos tão difíceis para uma criança... Nada tão triste como a morte, mas sofreu perdas, nada tão sorumbático quanto um racismo, mas foi discriminada, e nada tão plangente quanto à pobreza, mas foi privada de muitas prerrogativas. Sentiu a dureza da verdade e aprendeu que pra encarar as astucias da humanidade, tinha mesmo era que se fazer forte, ainda que fosse puro fingimento. Pois nesse mundo de cão, vence quem se faz audaz!
Alguns dos seus desejos foram sucumbidos, como quem sucumbe uma sombra, que aparece somente nos dias de sol, seco e árduo aqui no sertão, ou como o arco-íris que vem  depois de uma chuva gostosa, mas que a gente se contenta apenas em olhar, pois pegá-lo ninguém nunca foi capaz. Desejos fáceis para alguns e distantes para outros, desejo de tanta coisa que no emaranhado da emoção fica difícil listar... Eram tantos!
A menininha magrela seguia sua estradinha, sempre pelo canto, pois o caminho era engenhoso e cheio de armadilhas, subia no meio fio, andava pela linha do trem e cantarolava, dava giros soltos no ar com os braços abertos como se nada no mundo importasse; doce menina, agora mais parecia uma andorinha querendo fazer verão sozinha... Saltitava com tanta leveza que os seus pezinhos quase não tocavam o chão, era ingênua, mas escondia uma bravura que ainda nem ela descobrira.
Uma menina única, com sonhos únicos e com vivências repartidas com seres únicos que passaram também por sua única vida. Com as lagrimas galgou grandes jornadas, com os sorrisos bravos que nunca murmuraram uma fagulha de desgosto ela sucumbiu às amargas verdades que lhes cuspiram na cara. Uma criança, ora desprotegida, ora magoada, ora iludida, mas em outras tantas realizada. Na sua afeição muitos, mas afetividade veio de poucos, mas foi amada e amou. E foi travessa e aprontou, tem histórias bem maiores que a sua cabecinha e guarda lembranças lindas da sua mãezinha, do seu vozinho e da “vizinha”.
Menina magrela que virou moça vistosa, que andou descalça e jogou bola, hoje anda de jeans, mas já trajou em outrora um vestido de xita que a deixava uma tanto formosa. Brincou no quintal, onde seu mundo era gigante e descobriu mais tarde o quanto tudo isso foi importante, pois fez daquela menininha tudo o que ela é agora. Fazendo-a carregar no peito a verdade que nunca a apavora, pois trás consigo em sua memória as durezas que a vida lhe impôs e que a fez corajosa.
Difícil se ter sozinha, mas ela teve em si o desejo de ser tudo aquilo que sua mãezinha desejava, afinal não era a toa que os seus conselhos ela guardava. Menina, moleca, selvagem e esperta, diz pra ti que sonha em ser como ela: Seja tudo menos dispersa, pois nesse mundo cruel são as oportunidades que nos fazem pintar com aquarelas a vida que um dia se escreveu com cautela.
Aryanne Alves, a menininha*

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